quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Boas saídas

So it is better to sleep and leave the bottle unopened;
Tomorrow in the offices the year on the stamps will be altered;
Tomorrow new diaries consulted, new calendars stand;
With such small adjustments life will again move forward
Implicating us all; and the voice of the living be heard:
"It is to us that you should turn your straying attention;
Us who need you, and are affected by your fortune;
Us you should love and to whom you should give your word."

(New Year Poem, P. Larkin, 1940)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Feliz Natal

Dias depois de um homem morrer num hospital de Lisboa porque não havia especialistas ao fim-de-semana (sic), somos informados que vamos ter de pagar a falência de mais um banco.
Feliz Natal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Natal

Presépio atribuído a Machado de Castro, séc. XVIII (Lisboa, Basílica da Estrela)

Turvou-se de penumbra o dia cedo, 
Nem o sol apertou o meu beiral.
Que longas horas de Jesus... Natal!
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo...

E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume.
Que lindos versos bíblicos, ao lume, 
P´lo doce príncipe cristão dos pobres!

Fulvas figuras para esculpir em barro:
À luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em presépio com meus pais e irmãos.

E junto às brasas, os meus olhos postos,
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.

Afonso Duarte

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Narcolusolândia

Esta notícia apareceu no Correio da Manhã de ontem   a meio do  jornal, de anteontem, creio, numa pequena nota no final de uma página. 142 quilos. Normal. Estamos bem. A meio caminho entre o Panamá de Noriega e Marselha dos anos  60. Debates? Discussão?  Vai no Batalha...
Um dos maiores narcos europeus foi anteontem preso em Benalmádena. Foram apreendidos 201 kg d ecocaína . Big notícia. E bem.

(coisas  aqui)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cheguem-me um lenço, por favor

É enternecedor o desvelo com que o Público se tem feito arauto da tese do "radicalismo da direita", já aqui escalpelizada pelo bisturi do Dr. Vicente. Hoje, a propósito do anunciado apoio da coligação a Marcelo, recomenda brandamente em editorial que os senhores não macem muito o simpático Dr. Costa, pois "qualquer sinal de radicalismo por parte do PSD e do CDS afastará o eleitorado moderado de esquerda e transformará este apoio no abraço de urso que pode asfixiar Marcelo".
Pobre Marcelo, tão simpático como o Dr. Costa, mas em risco de ser asfixiado pelos ursos...
Estou comovido, confesso. Estou comovido com a solicitude pela vitória marcelista, prova certa do espírito democrático do jornal. Estou comovido com o súbito amor à união nacional, tão em risco de asfixia como a vitória marcelista. Estou comovido com a generosidade em dar conselhos aos subversivos da PaF, que só pensam, ai estes rapazes, em maçar o simpático Dr. Costa. Estou comovido com a defesa do "eleitorado moderado de esquerda", não vão estes outros senhores ter que votar, imagine-se, em Névoa, ou em Maria de Belém, ou nos imoderados candidatos do PCP e do Bloco.
Cheguem-me um lenço, por favor, que já me está a cair uma lágrima...

Dissolver o povo


Na Venezuela, onde o defunto Chávez criou um Conselho da Moral (sic) para defender "o poder do cidadão" de eventuais maldades do poder representativo, Maduro segue os passos do caudilho e atira-se aos eleitores que deram dois terços do Parlamento à oposição: "Votaram contra vocês mesmos. Eu queria construir 500 mil casas no próximo ano, entregar 100 mil táxis comprados à China, mas agora tenho dúvidas de que o possa fazer com uma assembleia dominada pelo fascismo; eu pedi o vosso apoio e  não mo deram."
É de partir o coração a qualquer democrata. Maduro, a vanguarda do proletariado, queria conduzir o povo a uma nova era de progresso e abundância, mas o povo, nada maduro, preferiu votar na reacção. Camarada, segue o conselho que o Brecht deu ao governo da RDA depois da revolta de 1953: não seria mais simples dissolver o povo e eleger outro?