domingo, 6 de julho de 2014

A crítica-cópia

 No Malomil:
"Depois do acto final de "Servidões", este livro é já a Morte, o apagamento de uma luz que corre o risco de serdesentendida se a língua em que vive não resistir à banalidade, tocando uma vezpor outra o céu da boca, para sentir o ouro da estrela que foi Herberto Helder". 

 Língua, luz, céu da boca, ouro da estrela : banalidade, sim.
Não me incomoda o Herberto-Cristiano Ronaldo, esfarinham-se-me outras arrelias.  Nas minhas séries, que  fui trazendo aos blogues e à "Ler" ( no seu tempo), tenho  assinalado o esquecimento que  outros poetas recebem do público sandeu. Por exemplo, João Lúcio e Cristovam Pavia ( Bugalho) num eixo, Cinatti e Fiama noutro.
Este público leva a sério a abertura  de Brecht no "Manual  para os Habitantes das Cidades": apaga todos os vestígios.

sábado, 5 de julho de 2014

TVi, domingo, 01.12:

"O palestiniano  foi asassinado e queimado vivo por soldados judeus numa vingança sectária por causa de três adolescentes  judeus raptados que apareceram mortos".

Os judeus "aparecem" mortos.
Num dia estão vivos e  no outro aparecem mortos. Como os velhos dentro das casas, os cães vadios  na estrada ou  os peixes nos rios.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

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A burqa e o Ocidente*


Depois de debatida nos parlamentos de Inglaterra, França, Bélgica e Espanha, a proibição da burqa e do niqab chegou ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.  É um teste aos limites do multiculturalismo na Europa e, portanto, às regras de convivência entre Estados, comunidades e indivíduos na sociedade aberta. Em princípio, nada deveria limitar o direito de alguém se vestir como quer, desde que não ponha em causa os direitos dos outros. Mais: o direito de vestir a burqa, conotado com uma identidade comunitária que nasce da religião, é de algum modo uma consequência da liberdade religiosa. Ao mesmo tempo, porém, esse uso violenta a civilização política em que vivemos de dois modos: na noção de identidade pessoal e na noção de espaço público, fundamentos históricos da democracia.
Na verdade, o uso da burqa e do niqab ultrapassa o simples exercício de um direito individual. Por um lado, difunde uma mensagem de desigualdade entre homens e mulheres e até de submissão da mulher ao homem que contraria, ainda que simbolicamente, a igualdade entre todos os cidadãos. Por outro, privatiza o espaço público invocando uma estrutura familiar, hoje desaparecida no Ocidente, em que a mulher está sob a tutela legal do pai ou do marido. Note-se que essa privatização fere não apenas a dignidade das mulheres, mas a de todos os homens exteriores à família, implicitamente vistos como uma ameaça. Perante a lei somos cidadãos iguais, mas perante a burqa somos membros de tribos antagónicas: homens e mulheres, parentes e estranhos, muçulmanos e não muçulmanos. Ou seja, a burqa nega publicamente a igualdade de todos perante a lei. No espaço público, que a democracia define como neutro em nome da igualdade, a burqa é símbolo de uma identidade comunitária que a rejeita. Para usar o célebre conceito de Charles Taylor, o direito ao reconhecimento de um grupo aliena assim o direito ao reconhecimento dos indivíduos que o constituem. Estaremos dispostos, em nome da liberdade individual ou da liberdade religiosa de alguns, a tolerar este atentado à liberdade de todos?
No Ocidente, o conceito de indivíduo está profundamente ligado ao de representação, não apenas no sentido político (o poder só é legítimo se representa os cidadãos), mas também cultural. Não é por acaso que a nossa noção de pessoa vem de persona, nome que os romanos davam às máscaras usadas no teatro clássico para representar as personagens. A história da arte ocidental é em grande parte a história das imagens do corpo humano, desde a Grécia antiga, que dava aos deuses as feições dos mortais, ao cinema moderno, que dá aos mortais as feições dos deuses.
Pelo contrário, lembra Bernard Lewis, “a tendência da arte bizantina para o abstracto foi acentuada no Islão, onde o preconceito contra a representação pictórica da forma humana conduziu em última análise a uma expressão artística estilizada e geométrica”. O Ocidente é iconófilo, observa o historiador Jean-Claude Schmitt. Apesar de algumas correntes iconoclastas entre ortodoxos e protestantes, o Cristianismo representa a transcendência sob os traços de um homem, da fragilidade do nascimento e da morte à glória da Ressurreição e do Juízo Final. O dogma central da Encarnação fez com que, durante séculos, os corpos de Cristo e dos santos fossem o objecto mais representado na arte do Ocidente. “Deus fez-se imagem em Cristo que se fez homem”, na fórmula feliz de Bento XVI.
Isto teve enorme influência na cultura ocidental, levando não só a uma particular valorização do realismo na arte, mas também a uma equivalência entre a dignidade da pessoa e o seu rosto. Basta pensar em expressões correntes como “perder a face”, “dar a outra face”, “ter duas caras”, “não ter vergonha na cara”. Na pintura e na escultura europeias, o retrato é talvez o único género que sempre se praticou, sinal seguro do valor da representação do indivíduo ao longo da história. Os nossos museus estão cheios de obras que o testemunham, do busto de Péricles aos bigodes feitos por Duchamp à Mona Lisa, subversivos na exacta medida da reverência que tributamos ao original de Da Vinci.
Há na figuração do rosto uma referência tão evidente como misteriosa à mais elementar dignidade pessoal. É por isso que a célebre metáfora de Orwell no 1984 (“o futuro é uma bota a pisar um rosto humano”) nos atinge tão violentamente. Na capacidade de sugestão de uma grande obra literária, estas palavras tocam o nervo mais íntimo da nossa integridade.
O mesmo se passa com a burqa. Sem querer fazer paralelismos absurdos, também a burqa nega às mulheres que a usam a dignidade de um rosto. É um caso clássico em que o exercício da liberdade ameaça direitos não menos fundamentais, como o direito à própria identidade. Seja qual for a posição que tomemos no debate, estaremos sempre a negociar valores que a nossa sociedade tem por indiscutíveis. Talvez reconhecê-lo seja um bom começo de conversa. Porque que está em causa não é uma peça de roupa, mas as pessoas que estão por baixo.

*Post recuperado.

Dicionário português pós-troika ( 12)

"Clarificação":

Também usado  como sinónimo de  norma de execução.  O  marido bronco clarifica a mulher: clarifica lá se sempre vais ao jantar com essa mini-saia. Ou: não estava claro que não quero os bifes mal-passados?
A clarificação é um pedido que vem , em regra, acompanhado de ferros do monte e bufidos espavoridos.

Logo de manhã

quinta-feira, 3 de julho de 2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dicionário português pós-troika ( 11)

"O ( nosso ) estilo de vida":

Dulcíssimo e  com sabor  a framboesa. Significa uma categoria que desmerecemos.
Pode é acontecer que depois não haja nada para comprar com tão extravagante  salário, o que Marlow também constatava.

terça-feira, 1 de julho de 2014

La manita



Os calimeros profissionais trabalham no defeso. Só não serão campeões "se houver dedinho".
Para eles  não há   30 jornadas nem adversários.
Vamos  todos dar-lhes um dedinho a partir de Agosto.

Há vida depois de Rubens?

De manhã, ouvi na SIC, entre a bica e o embate com a realidade, uma entrevista a António Filipe Pimentel, ilustre conimbricense, primo de alguns de nós e director do Museu Nacional de Arte Antiga. O pretexto era uma boa notícia: o MNAA registou nos primeiros seis meses deste ano mais visitantes do que em todo o ano passado. O jornalista perguntava a Pimentel porquê e ele ia dando as suas razões, sem nunca invocar a mais óbvia: a recente exposição que nos trouxe alguns Rubens, Brueghels e Lorrains do Museu do Prado. Talvez o tenha feito depois (não ouvi toda a entrevista)-
De qualquer modo, surgiu-me logo uma pergunta desmancha-prazeres. Não sendo possível ter sempre obras com esta capacidade de atrair o público, como é que as Janelas Verdes podem manter no futuro a mesma dinâmica?
Louve-se a política de intercâmbio com grandes museus da Europa, que vem de trás (embora tenha corrido mal com o Hermitage) e está a começar a dar frutos. A força de um museu, no entanto, vem da sua colecção permanente. E aí há muito por fazer. Como António Filipe Pimentel saberá melhor que ninguém.

Apanhar os cacos


"Agora que tanto se discute a herança socratista", diz o Filipe. Se é verdade,  e parece-me que sim, então Seguro regista aqui uma pequena vitória. A sua táctica (chamar-lhe estratégia talvez seja excessivamente lisonjeiro) tem sido a de encostar Costa ao passado socratista. Está a conseguir.
Não por mérito próprio, contudo. Sucede apenas que o PS nada tem a dizer ao país, além de responder se gosta mais do papá Sócrates ou da mamã Troika. Nem uma ideia, nem um programa, nem um princípio correm o risco de ser atirados à arena por Seguro ou Costa. Fica-nos bem lamentar que a fronda socialista esteja a cair na golpada estatutária ou na lavagem de roupa suja, mas não poderia ser de outro modo. Eles têm razão: quando não há nada a dizer, fala-se de Sócrates. Fora, mas também dentro.
É uma consequência de terem trocado a política por um projecto sectário de poder. O socratismo nunca foi mais do que isso, e o PS está agora a apanhar os cacos. Vai levar tempo.

O socratismo

Nem quando fiz campanha nos blogues por Manuela Ferreira Leite pedi ao Paulo ( Mota Pinto) para a conhecer, mas com  Sócrates, que já aqui defini  como o único político português  actual de carne  e osso, gostava um dia de beber uma cerveja.
Agora que tanto se discute a sua herança, umas notitas:

1) Enquanto ministro de Guterres, foi o único decisor que planeou e executou uma política de drogas decente. O dr Portas, na altura, avisou que passaríamos a ter sea, sun and drugs ( invasões de drogados): infelizmente, tenho  um livro inglês da especialidade  que o cita.

2) Foi o primeiro a mexer nas leis do trabalho, enfrentando  por isso a ira da esquerda.

3) Por isso foi uma pena que tenha  cedido ao eleitoralismo de 2009 ( perdeu tempo vital  em favor dos interesses do  partido) e mantido a marca de água  do pior que temos ( inclusive do  bloco central) :